Patricia Rocha |
patricia.rocha@zerohora.com.br
A mais forte tendência na moda masculina contemporânea não tem cor, padronagem nem modelo definido. Mas já está nas passarelas, nas vitrinas e toma forma no jeito de se vestir dos jovens de 20 e poucos anos: a onda que chega da Europa e dos Estados Unidos é trocar o uniforme minimalista do jeans e camiseta pelo desejo de se vestir bem.
Na prática, a garotada está redescobrindo aquilo que seus avôs ou os avôs de seus avôs faziam: compor um visual, combinando peças, sobreposições e acessórios. A onipresença do paletó e suas mil e uma composições (com tênis, calça ajustada, chapéu, suspensório, cinto com rebites e o que mais o estilo de cada um mandar) é só um indício do que vem por aí. Enfim, uma volta ao tempo em que homens se preocupavam com o apuro de seu visual tanto quanto as mulheres: da elegância dos aristocratas, passando pelo refinamento dos dândis, chegando à beca dos anos 1940, quando cavalheiro algum sairia de casa sem um traje completo. Mas tudo, claro, devidamente atualizado.
– A bola da vez é o homem jovem, o cara despido de preconceitos, que é pós-tudo que foi pré para a gente. Estão recuperando os valores da elegância masculina, mas relendo tudo isso – avalia o editor de moda masculina Lula Rodrigues.
Radicada em Paris, a consultora de moda Ana Clara Garmendia observa que esse processo já está bem adiantado na Europa, onde homens de diferentes idades – e não só os gays, que estão sempre na vanguarda – recorrem com naturalidade a complementos como bolsa, lenços e chapéus. Em passagem recente por Curitiba, onde fez um trabalho como personal shoper em um shopping da capital paranaense, Ana Clara se surpreendeu ao atender muitos homens em busca de um estilo próprio. Como as mulheres, eles também se identificam com ícones de beleza que veem nas revistas, querem ser bonitos e desejados e saber como melhorar seu look.
– O século 20 massificou a indumentária masculina com ternos para trabalho e calças jeans e camisetas para horas vagas. Agora, os homens querem buscar o tempo perdido – afirma Ana Clara.
Na moda masculina, as mudanças são tradicionalmente muito lentas. Mas, para atender esse homem preocupado em se vestir bem, pouco a pouco as coleções começam a seguir os moldes da moda feminina, que reinventa a cada estação modelagens, estampas, detalhes e acessórios assimilados de imediato pelas mulheres. Em breve, não só as elas estarão atentas às mudanças nas vitrinas.
– Antigamente, o cara comprava aquele terno e usava por cinco, dez anos. Hoje noto que o público masculino quer se atualizar e buscar coisas diferentes – diz Fred Mentz, estilista e um dos sócios da Spirito Santo, marca especializada em alfaiataria de vanguarda.
O passo natural para homens dispostos a encontrar seu estilo e a compor um visual é buscar informações sobre moda. No mercado americano e europeu, os descolados contam com revistas que trazem editoriais de moda masculina e que transitam entre o público gay e heterossexual. Um nicho a explorar no país e uma boa chance para o homem brasileiro, sempre apontado como conservador, mostrar que não está mudando só no visual.